2.18.2009


De si para si, Eliana entendia que tinha um problema muito sério que lhe pesava na alma e a impedia de.. qualquer coisa que desconhecia mas sabia que se sentiria mais livre e leve se o conseguisse resolver. Ela não conseguia esquecer ninguém. Absolutamente ninguém. Que algum dia a tivesse tratado de um modo que ela entendesse ser desagradável. Toda essa gente pesava dentro de si. Anotou o nome de cada uma dessas pessoas num papel. Teria de focar o seu pensamento nelas, visualizar o que mais amou em cada uma delas, rezar aos deuses mais benévolos se necessário, para que conseguisse aceitar, perdoar, esquecer e seguir em frente.
Por vezes achava que o que a magoava mesmo era a sua intuição de Cassandra. Inútil. E depois lembrava-se que isso nunca a magoaria se ela própria não fosse uma pessoa orgulhosa. E voltava a sentir a mesma vergonha de sempre, que, no seu entender, teria a mesma origem do que quer que motivasse o tratamento desagradável.
Fosse como fosse, ela sabia que deveria aceitar, perdoar, esquecer.. e seguir em frente. "Mas eu não consigo olhar para a frente se não entender o que aconteceu. Eu não percebo porquê? O que é que eu fiz? Porque é que as pessoas não se amam e se respeitam simplesmente? Eu sempre as tratei o melhor que sabia, como eu gostaria que me tratassem.. porque é que isto acontece? O que é que eu fiz?". Não entendia o comportamento das pessoas porque, é dado adquirido: ninguém magoa por querer, e quando o faz (nunca lhe aconteceu - acreditava, poria a mão no fogo - e nem a magoaria nunca, porque) está bem longe de quem realmente é. Era como se cada uma dessas pessoas lhe fosse lançando um laço cármico que a ia prendendo cada vez mais aqui, à Terra, "tão longe de casa.. ". Voltaria, sabia disso, de vida para vida a rever as mesmas pessoas e as mesmas dores; até desatar todos os nós que lhe iam prendendo ao coração. Tinha muita vontade de resolver o seu problema. Mas bastava ver uma dessas pessoas na rua ao acaso para sentir o corpo empalidecer e ganhar o peso de cem pedras de calçada. E nessas alturas só queria chão. Só confiava no chão. De onde não se cai mais.